Recorde de café robusta: produção dobra em 10 anos e desafia logística brasileira
O café robusta (conilon) deixou de ser coadjuvante na cafeicultura brasileira e agora desafia a logística nacional com sua expansão recorde. Primeiramente, os números comprovam a ascensão: em 10 anos, a produção dobrou, de 10,4 milhões de sacas em 2016 para 20,8 milhões em 2025, quando atingiu recorde histórico, segundo a Conab. Para 2026, a expectativa é de novo incremento, chegando a 22,1 milhões de sacas – uma expansão de 6,4% em relação ao ano passado. O grande desafio agora é escoar esse volume crescente por uma malha logística que precisa se adaptar.
Robusta representa 37% da produção nacional de café
Na produção total do ano passado, de 56,5 milhões de sacas, o robusta representou históricos 37%. O arábica, principal referência de qualidade no mundo, produziu 35,7 milhões de sacas em 2025 (63% do total). Segundo Hugo Centurion, Head da Ascensa Brasil, o país vive um movimento de diversificação, não de substituição. “O arábica ainda é dominante, mas o robusta está conquistando espaço” , afirma. Esse crescimento, no entanto, impõe novos fluxos de transporte que o setor precisa absorver.
Produtividade do robusta é mais que o dobro do arábica
A produtividade do robusta impressiona: 52 sacas colhidas por hectare (em 400 mil hectares), contra apenas 24 sacas por hectare do arábica (em 1,5 milhão de hectares). O robusta também é mais resistente ao calor e à seca, tem custo menor e navega em um mercado aquecido pela demanda dos cafés blends, solúvel e em cápsulas. Para o setor de logística, essa mudança significa mais volume com menos área plantada, exigindo planejamento eficiente de rotas e armazenagem.
Onde é produzido cada variedade e como isso impacta o transporte?
O café arábica está concentrado principalmente em Minas Gerais (Sul de Minas, Cerrado Mineiro e Zona da Mata), além de regiões de São Paulo, Paraná e Bahia. A cultura pede altitude e clima ameno. Seu escoamento tradicional ocorre pelos portos de Santos (SP) e Rio de Janeiro (RJ), infraestrutura já consolidada.
O café robusta, por sua vez, concentra-se historicamente no Espírito Santo (maior produtor nacional) e em Rondônia, além de áreas em expansão na Bahia e Mato Grosso. Diferentemente do arábica, o robusta avança para regiões mais quentes e de menor altitude. Esse deslocamento geográfico exige novas rotas: o robusta capixaba escoa pelo Porto de Vitória, enquanto a produção de Rondônia e Mato Grosso segue pelo Arco Norte (Porto de Itacoatiara/AM e Porto de Santarém/PA).
O desafio logístico do Arco Norte e dos portos regionais
A expansão do robusta para o Centro-Oeste e Norte coloca pressão sobre portos que historicamente movimentavam volumes menores. O Arco Norte, conjunto de terminais da região Norte, tem ganhado relevância, mas ainda carece de investimentos em infraestrutura de acesso e armazenagem. Para os transportadores, isso significa novas oportunidades de frete, mas também desafios como distâncias maiores, estradas em condições variáveis e necessidade de integração multimodal (rodoviário-ferroviário-hidroviário).
Reconfiguração da cafeicultura brasileira
“O que estamos vendo hoje no Brasil não é apenas o crescimento de uma variedade, mas uma reconfiguração da própria cafeicultura” , explica Centurion. Segundo ele, o robusta deixa de ser coadjuvante para assumir um papel estratégico, sustentado por ganhos expressivos de produtividade e maior resiliência às variações climáticas. O país mantém o arábica como referência de qualidade, mas incorpora o robusta como um vetor de escala, custo e sustentação de mercado. Essa reconfiguração exige que a logística acompanhe o ritmo da produção.
Características distintas e demanda global
O robusta apresenta sabor mais forte e amargo, corpo mais pesado e quase o dobro da cafeína do arábica, com notas terrosas e amadeiradas. Essas características atendem a um mercado global crescente por cafés industriais e blends. “O aumento da participação do robusta reflete vantagens agronômicas e uma resposta direta às transformações do consumo global” , alega Centurion, redesenhando o posicionamento do Brasil no mercado internacional. Para a logística, a mensagem é clara: o país precisa se preparar para escoar volumes recordes por rotas ainda em consolidação.
Fonte: Agência BNDS
Foto: Divulgação
Leia Também: Fábrica de fertilizantes da Petrobras reativada no PR e agro ganha reforço

